Se queres meter entre-linhas, tens de criar esse espaço – Sporting e como as equipas portuguesas têm limitado Keizer

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A chegada de Marcel Keizer trouxe um novo fulgor ao Sporting. Vindo da escola holandesa, o ex-Ajax encantou nos primeiros tempos com exibições personalizadas, completamente distintas das protagonizadas pelo Sporting de Peseiro. Partindo de um 4x3x3, o Sporting demonstrou sempre intenções (embora a espaços não o tenha conseguido e tenha partido o jogo) de controlar a posse e consequentemente o jogo, encostando o adversário no seu meio-campo e, em ataque posicional, tentar desposicionar o bloco adversário.

Para isto, Keizer tentou que a equipa em fase ofensiva se posicionasse numa espécie de 2x3x5, tentando sempre criar superioridade atrás das linhas adversárias, tal como postulam as “leis” do jogo posicional. Desta forma, deu o protagonismo aos centrais do Sporting durante a construção de jogo. Mathieu e Coates apresentam ambos bastantes argumentos neste momento do jogo.  O Sporting tentou sempre explorar o corredor central, com acesso direto aos interiores ou aos extremos quando estes fizessem movimentos de apoio. Explorando o centro, abria espaço nos corredores laterais, onde os extremos e os laterais podem desequilibrar. Tanto por movimentos de ruptura para as costas da linha defensiva como em ações de 1×1.

Mas com o passar dos jogos, as equipas em Portugal puderam analisar as movimentações e inteções da equipa de Keizer. E rapidamente perceberam como condicionar o Sporting. Com um bloco muito junto, retirando o espaço entre a linha média e a linha defensiva, geralmente ocupado pelos dois interiores leoninos, a equipa de Marcel Keizer começou a passar por dificuldades. Passes mais arriscados, mais erros cometidos em construção, que resultavam em lances de perigo. E com os erros começou a aparecer a falta de confiança, gerando um efeito bola de neve: mais erros iam sendo cometidos e os centrais arriscavam menos vezes, fazendo com que o jogo do Sporting perdesse algumas das mais-valias que vinha apresentando.

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A construção do Sporting começou então a ser mais lenta, mais previsível, com mais dificuldades em explorar o corredor central. Com os laterais subidos, a equipa foi tornando-se cada vez mais desconexa. E com isso foi-se a capacidade para controlar o jogo e empurrar o adversário para o seu meio-campo. Tornou-se cada vez mais fácil para os adversários terem períodos de posse mais longos, condicionar os nossos 3 elementos na construção (centrais e 6) com menos homens, forçar o erro e proteger o corredor central.

O Sporting precisa então de fazer um reflexão sobre os problemas que tem enfrentado todos os jogos, perceber as razões desses problemas e finalmente arranjar formas de contrariar a estratégia adversária.

Como podemos ver na imagem acima, registada no último jogo disputado, os centrais estão entregues a si mesmos na construção. Ambos os interiores se tentam posicionar atrás da linha média adversária, que facilmente os anula. Também a primeira linha de pressão adversária, que em Portugal comummente é constituída por dois jogadores, condiciona o acesso a Gudelj, deixando assim os centrais com uma única opção: lateralizar. Se o Sporting quer voltar a ter acesso ao espaço entre a linha média e a linha defensiva, onde os seus interiores podem fazer a diferença, tem de atrair o adversário, de modo a aumentar esse espaço. Para além disso, tem de encontrar forma dos jogadores nessa zona enquadrarem mais facilmente.

Assim, era importante que, por exemplo, um dos interiores não se escondesse tanto entre as linhas adversárias. Veja-se por exemplo o posicionamento de Miguel Luís neste lance. O movimento em apoio do extremo (movimento habitual no Sporting, geralmente por Nani) atrai o médio vimaranense e aumenta o espaço entre-linhas. Mas o posicionamento de Miguel Luís, à frente da linha média adversária, permite combinar rapidamente com Diaby, deixando o extremo do Mali enquadrado já atrás da linha média adversária.

Baixando o Gudelj para entre os centrais, de modo a criar superioridade face à primeira linha de pressão geralmente formada por 2 elementos, é necessário a presença de um elementos imediatamente atrás dessa linha de pressão que permita este tipo de combinações. Wendel e Bruno Fernandes, talvez ainda por vícios do passado (quase toda a carreira como 10 ou 2º avançado), aparecem sempre mais próximos do último terço, demasiado altos para auxiliarem neste tipo de movimentos. O movimento em apoio vindo de trás é também muito importante, pois atrai os médios e permite aumentar o espaço entre-linhas que poderá então depois ser aproveitado.

Baixar Gudelj para mais junto dos centrais pode permitir atrair a primeira linha de pressão adversária de modo a que o exista então também espaço para essas combinações acontecerem. Veja-se este exemplo: bola entra em Acuña. Bruno afunda e Nani vem em apoio, abrindo espaço entre-linhas. Mas vindo Nani desde trás, traz consigo uma pressão imediata, pelo que terá de tocar rapidamente. Gudelj seria o elemento que ofereceria o apoio directo, ficando assim enquadrado. No entanto, também ele tem a pressão dos elementos da frente do Moreirense, dificultando a sua ação. E mesmo a forma como vai colocando os apoios demonstra que não é um mecanismo muito bem trabalhado, parecendo uma decisão mais fruto da pressão que Nani estava a sofrer do que necessariamente uma acção pensada com essa intenção, a de deixar Gudelj enquadrado.

Veja-se também este caso. Os avançados do Moreirense não pressionam os centrais e condicionam o acesso a Gudelj, já que os interiores estão profundos e a serem controlados pelos médios dos cónegos.  Centrais sem opções. Finalmente aparece Bruno Fernandes vindo de trás, com o acompanhamento de um médio do Moreirense. Mesmo que a bola entrasse em Bruno, dificilmente este conseguiria receber em condições, pelo que teria de ter um apoio próximo em quem jogar. Esse seria Gudelj, mas também ele estava com adversários próximos pelo que também não conseguiria receber em condições.

Mesmo que não sejam estes os intervenientes mas sim outra variável, importa melhorar o acesso aos interiores leoninos. Arranjar formas de chegar ao espaço entre-linhas e colocar alguém enquadrado e não a receber de costas e ter ainda de enquadrar, dando tempo ao adversário de pressionar. Tabelas, dinâmicas do terceiro homem, etc.

Também no último terço o Sporting tem tido alguns problemas. Fruto também das deficiências na construção, a equipa leonina chega ao último terço pelos corredores laterais em condições desfavoráveis e não consegue (muitas vezes nem tenta) voltar dentro. Como resultado, temos assistido a um crescente número de cruzamentos da parte dos leões, tornando o jogo cada vez mais previsível e fácil de anular (jogo frente ao Tondela como exemplo).

O Sporting precisa então de desenvolver mais mecanismos que permitam, quando entram no corredor lateral, voltar ao corredor central, aumentando a variabilidade do seu jogo. Muitas vezes falta critério aos jogadores leoninos que ocupam estas posições, embora já tenham apresentado qualidade nestes momentos, vejam estes exemplos frente ao Belenenses SAD.

Os jogadores precisam de ver o corredor lateral não só como um fim, para o cruzamento (que são legítimos e devem continuar, ainda para mais tendo em conta a qualidade de Bas Dost neste momento do jogo), mas também como um meio para conseguirem voltar a ganhar espaço dentro. E vice-versa, isto é, o corredor central também deverá servir como um meio para criar situações vantajosas no corredor lateral (vejam por exemplo o golo do Bruno Gaspar frente ao Belenenses no vídeo em cima). Variabilidade e critério.

Em suma, é um Sporting a passar por algumas dores de crescimento. A velocidade a que vão introduzindo mais variáveis ao seu jogo é menor do que aquela à qual o adversário se adapta à equipa leonina. E assim, o Sporting já passou por jogos complicados onde o adversário conseguiu anular, e bem, a equipa leonina, causando inúmeras dificuldades, que abalaram a confiança dos jogadores (e até do próprio Keizer, ou não teria alinhado como alinhou frente ao Porto) nas suas ideias e no seu processo. É importante persistir com esta filosofia e com estas ideias, resistindo às vicissitudes do caminho, aos resultados negativos e aos dissabores. Quanto mais forte forem as crenças nas ideias da equipa e quanto mais confiança os jogadores tiverem, a melhor nível se irá apresentar. Mas para isso é necessário melhorar alguns mecanismos, para que ocorram menos perdas, para que o Sporting ataque melhor, crie mais dúvidas no adversário. É preciso fortalecer o modelo. E para isso é preciso tempo.

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