O Losango da Selecção – uma breve reflexão

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Hoje vou tentar escrever rapidamente uma pequena reflexão sobre a abordagem da selecção no primeiro jogo da fase final da Liga das Nações, que culminou numa vitória por 3-1 da selecção das quinas, com Ronaldo a escrever o seu nome uma vez mais na história do futebol nacional.

Fernando Santos acabou por surpreender um pouco toda a gente ao montar um 4x4x2 losango, ao invés do habitual 4x4x2 clássico ou 4x3x3. Um losango constituído por Rúben Neves como pivot, William e Bruno Fernandes como interiores e Bernardo como número 10, atrás de Ronaldo e João Félix que começavam numa posição mais lateral.

O 4x4x2 losango é um esquema que tem caído em desuso nos últimos anos. Com o sucesso alcançado por Pep Guardiola e consequente estudo das suas equipas e tentativa de réplica de alguns dos seus princípios em muitos casos, levou a que hoje em dia se veja cada vez mais um aproveitamento da largura total, de modo a esticar o bloco defensivo adversário e consequentemente abrir espaços. Daí que hoje em dia os sistemas defensivos mais usados sejam o 4x4x2 clássico, com duas linhas de 4 ou o 5x4x1 e 4x5x1. Estes sistemas permitem controlar a largura tanto na linha defensiva como na linha média, tornando a tarefa do atacante muito mais complicada. Circular para atrair a um lado e penetrar no outro tem-se tornado cada vez mais complicado, já que o bloco defensivo é capaz de bascular muito mais rapidamente e controlar a largura. Daí também que o Nápoles de Sarri tenha sido tão elogiado. A equipa do (por) agora treinador do Chelsea era capaz de exercer uma circulação vertical muito interessante, que permitia entrar nas costas da linha média com enorme facilidade, sem que a equipa encravasse numa circulação em “U” inócua (Alô Lopetegui e Nuno Espírito Santo). O 4x4x2 losango em termos defensivos tem precisamente esse problema. Com apenas 3 jogadores a controlar a linha média, torna-se muito mais fácil atrair o bloco a um lado e entrar pelo lado “fraco” como podemos ver na imagem.

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Este problema é ainda mais exacerbado quando os interiores são por exemplo William Carvalho que, apesar de toda a sua qualidade, não é jogador para cobrir grandes áreas do terreno nem para passar um jogo constantemente a bascular para fechar os espaços.

Ou seja, em organização defensiva, quando a iniciativa está do lado do adversário, actualmente o sistema ontem utilizado pela Selecção terá sempre algumas falhas que podem ser exploradas pelo adversário.

Olhando para quem usa um modelo que se aproxime do 442 lonsago no futebol actual, vejo dois exemplos bem executados. O primeiro (e também mais parecido) é o modelo de Marco Rose. Aquele que para mim é o treinador mais promissor da atualidade monta a sua equipa também num 4x4x2 losango. No entanto há várias diferenças. Primeiro, a equipa de Marco Rose tem um jogo posicional em organização ofensiva que lhe permite reter a bola durante maiores períodos de tempo e após a perda recuperá-la rapidamente com uma pressão agressiva. Depois em organização a equipa austríaca é sempre muito mais pro-ativa que passiva, exercendo uma pressão forte sobre a construção adversária. Desta forma, a equipa do agora treinador do Borussia de Monchengladbach diminui em muito o tempo em que são obrigados a assumir o bloco mais baixo e reduzem os problemas acima referidos.  Para além disso, o perfil dos jogadores do meio-campo também é bastante diferença, com uma dimensão física muito diferente e uma disposição para bascularem e cobrirem grandes partes do terreno muito maior. Portugal também tentou pressionar mais a construção adversário do que é habitual na equipa das quinas… Porém, por falta de hábito e de rotinas, essa pressão foi sempre desorganizada, deixando o bloco muito partido, resultando apenas no desgaste dos jogadores da frente.

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Outro exemplo será o Liverpool de Klopp. Partindo de um 4x3x3, com Firmino num papel próximo de falso 9 (não sendo um falso 9 puro e aproximando-se muito mais de um 9, a participação de Firmino centra-se muito mais na criação, sendo um ponto de contacto para libertar nos movimentos de Salah e Mané). Defensivamente o Liverpool também deixa apenas 3 jogadores para controlar a linha média. Daí que também adoptem uma postura muito mais proactiva nos momentos defensivos, tentando pressionar a cosntrução adversária, fazendo uso das suas conhecidas “pressing traps”.  E também aqui o perfil dos médios é quase sempre outro, com a disponibilidade física a desempenhar um papel importante (Milner, Gini, Keita). Desta forma vemos que, para equipas que deixem apenas 3 jogadores para controlar a largura da linha média, é necessário ter um esquema de pressão muito bem trabalhado para evitar precisamente que se penetre facilmente atraindo de um lado para entrar pelo outro.

E agora talvez a parte mais controversa da minha opinião. Apesar de todos estes problemas, tenho para mim que o losango foi muito mais benéfico que prejudicial para a selecção. Apesar de um jogo relativamente fraco de Portugal, este esquema tático permitiu juntar os criativos todos. Rúben Neves, William, Bruno Fernandes, Bernardo e João Félix. Mesmo que as individualidades sejam apenas isso mesmo, individualidades, a equipa acabará sempre por jogar melhor se eles estiverem em campo e se os aproximarmos uns dos outros. Para além disso, por não se sentirem tão confortáveis num bloco baixo, a Selecção não passou tanto tempo em organização defensiva como é habitual e tentou ter um pouco mais a bola e tentar expandir os períodos em que tinha a bola. E mesmo que não tenham tido resultados efectivos nesse capítulo, a verdade é que ter essa intenção será sempre melhor do que simplesmente entregar a iniciativa ao adversário e aguardar em bloco baixo, já que isso aproxima muito mais do insucesso do que do sucesso, por muito que possam tentar contrariar.

Não que isto desculpe o pouco futebol apresentado ou que não seja preciso corrigir estes erros. Mas preferirei sempre ter os criativos em campo para tentar jogar alguma coisa com bola que ter carregadores de piano 90 minutos a bascular de um lado para o outro à espera do golo por milagre como já tivemos.

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