Jesus e os 3 defesas

Nos últimos tempos muito se tem especulado sobre a possibilidade de Jorge Jesus alterar o modelo de jogo do seu habitual 4x4x2 com dois extremos abertos e 2 pontas de lança para um esquema de 3 centrais. Talvez isto seja apenas um delírio provocado pela ausência de debate futebolístico a que o período de verão nos obriga, em que cada experiencia de pré-época se transforma num acontecimento de grandes dimensões. Mas a verdade é que há, de facto, alguns fatores que nos podem levar a tirar a conclusão de que pelo menos esse sistema poderá estar a ser testado.

Desde logo, a exigência de Jorge Jesus na contratação de um defesa central esquerdino. Algo que até então nunca tinha acontecido. A escolha acabou por recair em Mathieu, central francês que atuava no Barcelona, onde jogou tanto a central como a lateral-esquerdo numa defesa a 4 e em esquemas envolvendo apenas 3 defesas.

Também a pretensão do Sporting de contratar Acuña e Pity Martinez, dois extremos esquerdinos bastante caros, poderá levar a que se intua que a solução para que ambos atuem simultaneamente passe por uma alteração do modelo de jogo. Esta reflexão é ainda suportada pelas características que ambos apresentam, sendo que Acuña parece ter características muito interessantes para atuar enquanto ala esquerdo, fazendo todo o corredor, e Pity, sendo um jogador mais cerebral, com maior qualidade no último terço e não apresentando a disponibilidade física que Acuña apresenta, poderá ser incorporado numa das 3 posições mais avançadas deste novo esquema que muitos pensam Jesus estar a trabalhar.

Para além disto tudo, o ano passado Jesus mostrou-se muito agradado com as características demonstradas por Gelson Martins. Gelson é um extremo que, por si só, confere bastante largura à equipa, já que aparece sistematicamente a receber fora do bloco. Isto levou por vezes a uma má ocupação do espaço central, já que, como Gelson, também Schelotto se sente confortável a receber fora do bloco e a conferir largura. Na parte final da época, era possível ver Schelotto a tentar alguns movimentos interiores quando Gelson recebia bem aberto, de modo a tentar a ocupação de espaços mais centrais, mas sem nunca ter resultado muito bem. Esta falta de presença no corredor central, aliado a uma crescente pressa de chegar ao último terço, levou a que a equipa leonina fosse ofensivamente muito previsível, recorrendo sistematicamente ao cruzamento como ferramenta de ataque. Gelson demonstrou também muita velocidade e disponibilidade física. Jorge Jesus, confesso admirador então deste jogador, poderá querer encaixá-lo num modelo que privilegie as suas características, colocando Gelson a actuar como ala, fazendo todo o corredor direito. Também Piccini, lateral contratado esta época, poderá fazer esta posição, tendo inclusive jogado em algumas ocasiões como extremo direito e sentindo-se também mais confortável a receber bem aberto.

Estará Jorge Jesus de facto a pensar mudar para um esquema de 3 centrais? Movido pelo recente sucesso de equipas utilizando esquemas semelhantes, como Chelsea, Tottenham, Dortmund, Juventus e ocasionalmente Sevilha e Barcelona? Talvez até a pensar no aumento da procura por jogadores que encaixem neste tipo de sistemas por estas equipas de topo, que pode levar a vendas por valores cada vez mais elevadas?

Não creio. Pelo menos não enquanto sistema principal. Talvez como alternativa… Mas analisemos quais seriam algumas das consequências desta mudança.

A construção a 3 sempre foi uma realidade nas equipas de Jorge Jesus. O técnico leonino foi o responsável pela introdução e popularização da chamada “Salida Lavolpiana” em Portugal, onde o médio-defensivo caía frequentemente entre os centrais, formando uma linha de 3, na tentativa de criar superioridade numérica que permita uma construção inicial de jogo limpa. Porém, no 4x4x2 clássico de Jesus, este movimento normalmente leva a que se oriente muito o jogo para os corredores laterais, nomeadamente devido ao facto de o miolo ficar apenas ocupado por um jogador (Adrien), facilmente anulado. Como podemos ver na figura, o médio centro, neste caso Battaglia, ao procurar ser linha de passe, quase sai do bloco adversário, aproximando-se de tal maneira dos 3 elementos que iniciam a construção que torna a sua ação quase fútil e, invariavelmente, orientando a equipa para a ala por falta de soluções.

Battaglia

Ora, como em tudo, o tempo levou a que os adversário conseguissem criar defesas ao modelo de Jesus. Forçando a equipa, uma vez no corredor lateral, a permanecer lá, onde é mais fácil defender por haver menos caminhos e levando a um abuso do cruzamento como solução de aproximação da baliza, tornou-se cada vez mais fácil anular as equipas de Jorge Jesus. É certo que  os problemas neste capítulo também se prendem com o perfil dos jogadores escolhido, onde, por exemplo, entre outras coisas, nomeadamente no aspeto cognitivo, a não utilização de extremos de “pé trocado” acaba também por direcionar a equipa para as alas e para a solução do cruzamento.

Com a utilização de 3 centrais, já não existe a necessidade de o médio defensivo descer para criar superioridade numérica. Desta forma, poderá ser mais um jogador a conferir uma linha de passe interior, que evite o direcionamento para as alas acima mencionado. A figura que se segue, captada durante o jogo com o Belenenses, é exemplo disso mesmo, onde podemos ver dois médios de perfil a oferecerem linhas de passe à linha de 3 defesas que inicia a construção. Os dois médios tem depois apoio dos 3 avançados que lhes conferem linha de passe, enquanto os alas oferecem largura total.

3x4x3

Para além disto, Jesus tem sido muitas vezes criticado por não utilizar jogadores como Bernardo Silva, Iuri Medeiros, Francisco Geraldes etc por aparentemente não caberem no seu modelo de jogo. Esta alteração poderia estar envolvida, embora me pareça uma hipótese muito remota, numa tentativa de incorporar jogadores com este perfil na equipa, tendo o seu espaço numa das 3 posições mais adiantadas no terreno.

Na época passada, o Sporting sofreu um elevado número de golos por, na minha opinião, não preparar bem a transição defensiva, expondo assim demasiado a equipa a momentos de transição (vide jogo com o Rio Ave). Será a utilização dos 3 defesas a forma de Jesus contrariar essas fragilidades do seu modelo? Este modelo iria permitir ter mais gente no corredor central, a começar pelos dois médios, o que poderia conferir à equipa uma maior capacidade de estancar as ofensivas adversárias em contra-golpe. Um maior controlo do jogo.

Em suma, é um esquema com algumas vantagens, mas ainda numa fase tão inicial da época, será prematuro afirmar se foi uma mera experiencia ou se será algo mais que isso. Na minha opinião, Jesus treinará este esquema apenas como alternativa esporádica e não como aposta principal, mantendo-se fiel ao seu 4x4x2 que tanto sucesso lhe conferiu. Veremos com o desenrolar da pré-época e com o início dos jogos oficiais quais serão as opções de Jesus.

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