O invejável Ajax

Este ano assistimos a um excitante e apaixonante Ajax que conseguiu encantar a Europa, não só com o seu futebol positivo e agradável, idealizado pelo agora treinador do Borussia de Dortmund, Peter Bosz, mas principalmente por o conseguir executar apostando ao mesmo tempo em bastantes jovens provenientes da sua academia.

A época dos holandeses findou com duas mortes na praia: 2º lugar no campeonato holandês tendo a possibilidade matemática de se sagrar campeão até à última jornada e uma desapontante derrota na final da Liga Europa frente ao pouco entusiasmante Manchester United do português Mourinho. Mas nem isso foi capaz de esconder o mérito da equipa de Amesterdão, nem de afastar de si as atenções da Europa. Cá por Portugal, chora-se, principalmente no mundo leonino, a falta de uma aposta nos jovens semelhante à aposta realizada por terras holandesas. Como argumento usa-se o facto de a academia de alcochete ser considerada uma das melhores do mundo e culpa-se, pela falta de aposta, essencialmente Jorge Jesus, que conta já no seu historial uma série de “desperdícios”, com o nome de Bernardo Silva à cabeça.

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Também eu “choro” a falta de uma aposta semelhante à realizada pelo Ajax, mas não  nos mesmos moldes que a generalidade dos adeptos. O que muitos parecem esquecer ou até mesmo não saber é que esta época foi o culminar de uma mudança de paradigma geral ao nível do clube. Decidiu-se regressar ao “passado” e recuperar a filosofia de jogo que outrora trouxe grandes glórias ao clube, como por exemplo “a era Van Gaal”.

O Ajax é, hoje em dia, um clube com uma filosofia de jogo transversal a todos os escalões, desde a formação até à equipa principal. O clube aposta numa filosofia de jogo que permite o domínio do adversário pela posse e uma constante procura pelo homem livre.  A procura pelo espaço, pelo jogo entre linhas, extremos bem abertos, com muita técnica e capazes no 1×1, etc.  Mas este tipo de jogo necessita de jogadores com características muito próprias. Rapidamente Bosz excluiu Gudelj e Bazoer, fulcrais em épocas anteriores, e inverteu o triangulo a meio-campo, passando a utilizar Schone, normalmente um médio ofensivo, como o vértice mais recuado.

É então aqui que a formação ganha um papel importante na vida do clube. Nem sempre o tipo de jogadores para este jogo é fácil de encontrar. Desta forma, estimular os jogadores de forma a que estes se adaptem rapidamente a este modelo, a esta filosofia, pode ser a melhor forma de encontrar as peças para a equipa. Assim sendo, podemos então perceber a importância de ter uma filosofia que se transmita entre todos os escalões de formação, pois só assim será possível criar as melhores condições para moldar as peças de modo a que encaixem da melhor forma possível.

Também o facto de os jovens receberem os estímulos que os direccionem no mesmo sentido, para o mesmo destino, permite uma melhor transição entre os diferentes escalões, permitindo também que se incorpore os jogadores no escalão cujos estímulos melhor se apropriem ao seu estadio de desenvolvimento, “independentemente” da idade biológica. Sim, porque isso é também algo que não preocupa o Ajax. A inclusão dos jogadores em escalões acima do escalão que a idade determinaria, expondo assim os jogadores aos estímulos que melhor se adequem às capacidades que demonstram no momento é prática comum na escola holandesa e também parte do que permite uma aposta na formação directamente na equipa principal.

É também importante intuir que nem sempre os empréstimos poderão ser benéficos para o desenvolvimento de um jogador. Muitas vezes os empréstimos a equipas de um patamar menor poderão “castrar” algumas das melhores qualidades dos jogadores e criar neles alguns vícios que poderão ser inapropriados. Por exemplo um jogador que baseie o seu jogo nas combinações com os colegas, como os que o Ajax parece criar bastante, em empréstimos a equipas que não tenham uma filosofia semelhante, as associações poderão tornar-se mais complicadas e a característica que tornava o jogador especial poderá deixar de ser estimulada, porque as tentativas de associações tonar-se-ão fracassos e o jogador optará por deixar de as tentar. Assim, o jogador poderá, por exemplo, tornar-se muito mais individualista e não evoluir no sentido de ser uma peça cada vez mais importante para a equipa mas sim no sentido oposto. Um pouco como por exemplo creio que poderá estar a acontecer com o Iuri Medeiros.

No Sporting abandonou-se a ideia de seguir uma ideia concreta de jogo ao longo de todos os escalões, dando-se liberdade quase total aos treinadores para incorporar as suas ideias, sem que haja um fio conector entre os escalões. Isto tem repercursões ao nível da transição entre escalões. Veja-se por exemplo o caso de Tomás Silva, parte muito importante dos juvenis e agora completamente desprezado nos júniores. Foi uma evolução que ficou estancada e que foi dificultada precisamente porque as características que eram valorizadas num escalão passaram a ser desprezadas noutro. E mais casos destes tenderão a aparecer se a tendencia se mantiver.

Mas então porque devêmos invejar o Ajax? Pela sua aposta nos jovens? Ou pela aposta numa filosofia de jogo? Será possível uma aposta consistente em jovens sem se seguir uma ideia de jogo enquanto clube? Qual o objectivo final da formação? Que rendam no clube ou que rendam quando vendidos?

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