Dar a palavra a quem sabe e entende, tanto para as perguntas como para as respostas

vito

Numa semana em que AD nos presenteia com uma post no Domínio Tático (Ver Aqui) onde nos incita a reflectir sobre o estado da informação e debate futebolístico do nosso país, traçando uma comparação com Itália, onde contrapõe os diferentes tipos de questões que são colocadas aos treinadores e as abordagens feitas ao desporto, mostrando o quão empobrecido se encontra o nosso país nesse aspecto, é publicada uma das melhores entrevistas do futebol português que li nos últimos tempos. Algo que pode parecer até contraditório… ou talvez não.

A entrevista em questão foi conduzida por MARIANA CABRAL (que aproveito para felicitar pelo bom trabalho, se alguma vez chegar a ler isto), jornalista do expresso e, para deleite meu, treinadora das júniores do Sporting CP. Sim, uma jornalista que fala de futebol mas que sabe futebol e não apenas se limita a repetir chavões feitos e opiniões formadas, passíveis de serem ouvidas em qualquer tasca. Ou pior ainda, nos programas “desportivos” da nossa televisão, onde há menos respeito que entre os rufias ou em reuniões de pais (sim! também há muito desrespeito aí) e onde se fala de tudo, menos de futebol a sério. E o entrevistado é nada mais nada menos que um dos treinadores portugueses mais subvalorizados dos últimos anos no futebol português, com um registo notável ao serviço do FC Porto, mesmo defrontando outro dos melhores treinadores portugueses, isto é, Jorge Jesus.

vitor-p

Mariana Cabral, ao contrário do habitual nesses jornais desportivos (na maior parte das vezes…) foi capaz de colocar as perguntas certas, no momento certo e de dar liberdade a Vítor Pereira para este falar à vontade de algo que tanto gosta: futebol. Nada melhor do que dar a palavra a quem sabe. Neste caso tanto o entrevistado como a entrevistadora. A entrevista, que aconselho toda a gente a ler (Ver Aqui) é um manjar para aqueles que pretendem, como eu, ler, estudar e pensar sobre o jogo, mesmo que seja só por pura carolice e divertimento pessoal. O espinhense fala de tudo um pouco: de aspectos táticos e técnicos; da sua experiência profissional, passada, presente e dos seus planos futuros; da sua educação ao nível do futebol; das suas vivências e das vicissitudes que foi encontrando ao longo da sua vida; dos bastidores do futebol (balneário, críticas, estrutura e do mercado, não vá eu ser mal entendido); enfim, tudo informações pertinentes e curiosas.

E tudo isto apareceu porque se proporcionou a oportunidade de colocar um treinador com grande conhecimento do jogo à conversa com alguém que o compreenda, porque falar para alguém que de facto oiça é muito diferente de falar para alguém que se possa assemelhar a uma parede. E quem ganha com isso somos todos nós, que podemos ir enriquecendo a nossa visão do jogo, que nos pode ir estimulando para que olhemos para o jogo de forma diferente, com maior curiosidade e discernimento. Isto enriquece o debate futebolístico em Portugal.

O próprio Vítor Pereira reconhece precisamente isso.

Se tu vieres falar de futebol comigo, tens de vir bem preparada. Porque se não vieres bem preparada, então tu não vais saber do que é que eu estou a falar.

Vítor Pereira

Para terminar, claro está, fazer algumas observações e ligações entre a entrevista e o Sporting. Muitos de vocês já devem saber algumas das minhas opiniões à cerca das dificuldades que o Sporting tem enfrentado esta época. Curiosamente (ou, uma vez mais, talvez não), Vítor Pereira aborda, mesmo que sem intenção, um dos problemas que têm afectado a época leonina. Passo a citar o treinador:

É porque é a organização defensiva que podes controlar melhor? Está mais dependente do treinador.
Tens de ter muitas preocupações com a organização defensiva, de facto. Mas, por exemplo, nós no FC Porto éramos a equipa com menos golos sofridos. Mas que defendíamos mais? Claro que não. Éramos a equipa que dava menos iniciativa ao adversário, porque tínhamos mais bola e só havia uma. Em determinada altura, éramos a equipa na Europa que concedia menos remates ao adversário. E a segunda equipa era o Bayern de Munique. Porque nós tínhamos um equilíbrio posicional, quando tínhamos bola, que nos permitia reagir quando a perdíamos.

Vítor Pereira

O ex-treinador do FC Porto afirma que a equipa concedia poucos remates ao adversário devido ao equilíbrio posicional que permitia reagir aquando da perda de bola. Ora, isto é algo que tenho vindo a defender ao longo dos últimos tempos como um dos problemas do Sporting actual. A equipa montada por Jorge Jesus na época transata, devido ao diferente perfil dos seus jogadores, principalmente ao nível das alas, permitia exactamente esse equilíbrio posicional. Algo que foi esquecido e posto de parte por Jorge Jesus esta época, que alterou por completo o perfil dos alas neste ano. Este ano o Sporting tem iniciado muitos dos seus jogos com dois jogadores mais fortes no drible, mais velozes e capazes de maior desequilíbrio, mas esse desequilíbrio não só desequilibra  o adversário como desequilibra também a própria equipa, impedindo que esta reaja da melhor forma e mais rapidamente à perda de bola, criando assim muitas situações perigosas. A equipa não consegue ter o controlo do jogo como tinha a época passada. Não é por acaso que já sofremos bastantes golos após termos conquistado a vantagem.

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E aqui aponto o dedo a Jesus. Porque não foi capaz de perceber que a introdução de alas com o perfil dos do Sporting da época passada o beneficiaram, a ele e à equipa. É vital reconhecer as falhas e as melhorias dos modelos de jogo e das situações próprias do jogo. Porque o jogo está em constante evolução. Atentemos nas palavras, uma vez mais, do ex-treinador portista.

Repara, devemos ter a nossa ideia e ele tem uma ideia muito própria de jogo. Só que o problema é que a ideia tem de ser evolutiva. Ou seja, com determinado tipo de jogo conseguimos bons resultados e qualidade de jogo, mas a partir do momento em que começa a entrar em falência…

(…)

O futebol é mesmo isto. O modelo de jogo não é uma coisa… “Olha, o meu modelo de jogo é este”. Não, nós vamos construindo o nosso modelo.

Vítor Pereira

jesus

Como podemos ver, na opinião de Vítor Pereira, que vai de encontro à minha, é preciso estar sempre atento ao nosso jogo, ao que vamos construindo, para tentar sempre corrigir os defeitos e melhorar as fragilidades que possam vir a aparecer com o tempo. E saber aproveitar as melhorias. Algo onde Jesus falhou esta época e algo que aponto como uma das causas (não só) da má época desportiva dos leões.

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