A ajuda do treinador – Tiago Fernandes

O trabalho de um treinador, para mim, passa por facilitar a vida aos jogadores. Como é que isto é possível?  Dando aos jogadores o maior número de opções possíveis, garantindo diferentes formas, diferentes caminhos de atingir o objectivo. Isto pode ser feito de várias formas, como por exemplo aproximando vários jogadores da bola, de modo a potenciar o aumento das linhas de passe, juntar os sectores da equipa de modo a ter uma equipa compacta, conseguir alargar o campo quando em momento atacante, de modo a abrir brechas na organização adversária etc. Existem diversas formas de o fazer. E se o treinador for bem sucedido na sua missão, os jogadores conseguirão esconder as suas debilidades e potenciar as suas qualidades.

Foi isso que Jorge Jesus fez com Adrien e Slimani, por exemplo, jogadores com limitações mas cujo treinador conseguiu esconder, ao mesmo tempo que  potenciava as suas qualidades, para bem do colectivo e com o consequente aumento do valor de ambos. É por exemplo o que Conte está a conseguir fazer com David Luiz agora no Chelsea. O quão comum era ouvir falar de erros de David Luiz que custavam pontos às suas equipas? E até agora, quantas vezes se ouviu falar mal de David Luiz este ano?

sarritorino

Para mim esta é a melhor forma de avaliar o desempenho de um treinador. Através da evolução qualitativa dos jogadores e da equipa. Um bom treinador é capaz de levar uma equipa ao sucesso, fazendo com que os jogadores escondam as suas debilidades e até as consigam corrigir e potenciando ao máximo as suas qualidades. É isso que os grandes treinadores fazem. Foi isso que o Jesus fez com o Adrien e com o Slimani recentemente, foi isso que o Sarri fez com o Allan e com o Koulibaly, por exemplo, foi isso que Guardiola fez com Xavi e Busquets etc. E esta situação é ainda mais acentuada na formação, onde um treinador tem de tentar ao máximo potenciar as qualidades dos seus jovens jogadores e tentar corrigir as suas fragilidades e as suas dificuldades. E é tudo isso que não vejo Tiago Fernandes, treinador dos júniores do Sporting fazer.

No outro dia vi a equipa de júniores do Sporting derrotar a equipa do Nacional da Madeira. Uma equipa mediana/fraca (com todo o respeito pelo Nacional) quando comparada com a equipa do Sporting. Mas o Tiago, apesar de ser bem visto pela estrutura do Sporting, não foi capaz de facilitar a vida aos seus jogadores. Vê-se alguns movimentos padronizados, como por exemplo na fase de construção projecta o lateral e obriga o médio a ocupar o espaço dele. Mas qual a vantagem desta movimentação se depois deixa o corredor central sem ninguém? Se não dá linhas de passe ao médio e obriga a bater longo no corredor oposto ou no lateral que está muito profundo?

Bragança.png

Com a ajuda de apenas um homem no corredor central (ainda por cima com tanto espaço), a acção de Daniel Bragança seria muito mais facilitada. Assim é obrigado a bater longo, diminuindo as chances do passe ser bem sucedido, ou no lateral que está muito profundo, sendo também uma acção de difícil execução, que é o que acaba por fazer. Melhor ainda, se houvesse um homem no corredor central, este facilmente enquadrava e poderia encontrar muito mais soluções pois iria encontrar (idealmente) em apoio frontal, na esquerda e na direita, pelo menos. assim fica limitado a centrar para a área, pouco povoada, ou a jogar curto depois da subida do Daniel.

cd384cf1c4c2ebab91900f575803ab9e-1

Aqui novamente a movimentação padrão. Linha demasiado baixa. Não há progressão com bola. Lateral demasiado profundo dificultando a contrução pois a linha de passe exige um passe complicado com elevado risco de perda de bola. Zero aproveitamento do corredor central, nem mesmo como auxílio à exploração das alas, se a ideia for atacar pelas alas de modo a ser mais fácil defender em caso de perda de bola, já que é mais fácil encurtar o espaço na linha lateral. Zero condução por parte dos centrais também (que até têm qualidade técnica). Zero tentativas de quebra de linhas adversárias através de passes verticais a não ser quando colados à linha. A equipa prefere bater longo mesmo a partir dos guarda-redes e dos centrais porque o modelo não oferece condições para construir desde trás…

Não são exploradas e potenciadas as qualidades técnicas dos nossos centrais porque o modelo não lhes permite construir partindo de trás, nem físicas pois temos dois centrais rápidos, capazes de jogar numa linha muito subida que permitiria sufocar o adversário, mas que teima em ser uma linha muito baixa. Os centrais não são expostos aos estímulos que os poderão tornar em jogadores de topo no futebol actual, onde cada vez mais o central tem de pensar o jogo como um médio, como um 10.

E o mesmo se passa com os médios, que passam a maior parte do tempo fora do bloco adversário, não desenvolvendo por isso capacidades  que lhes permitam ser jogadores de topo no futebol actual, onde os espaços são cada vez menores e os jogadores necessitam de encontrar soluções para essas situações. A forma de os fazer evoluir nesse sentido é coloca-los nesses espaços apertados, mas apresentar-lhes soluções para sair de lá. Não afastando-os o máximo possível desses espaços.

Football - 2016 Durban U19 International - Semifinal - South Africa U19 v Sporting - Moses Mabhida Stadium

Para além disto, esta padronização e oferta de poucas soluções torna a equipa muito mais previsível, sendo portanto muito mais facilmente anulada. Prevejo inclusivamente uma pequena queda nos resultados nesta segunda volta. Mas que não deverá ser entrave à conquista do campeonato pois acredito piamente que esta equipa será campeã, principalmente pela grande qualidade individual desta geração.

Uma equipa muito à quem do que se exige a uma equipa de júniores de um grande, ainda para mais nesta primeira fase, onde a diferença qualitativa entre as equipas é tão grande. As equipas de júniores deveriam ser capazes de ter um domínio ofensivo avassalador, ser eficazes na construção e criação de jogo, ser capazes de explorar todos os corredores, desde corredores laterais, ao central, passando pelos half-spaces e não limitar-se aonde for mais fácil defender. Quem é prejudicado neste processo são os jogadores que irão chegar ao futebol sénior sem terem desenvolvido as capacidades necessárias para serem bem sucedidos no futebol mundial. Porque não têm sido expostos aos estímulos certos. Isto tudo do meu ponto de vista claro… Haverá quem discorde.

tiagofernandes

Mas para mim há muita coisa mal nos júniores e equipa B do Sporting, as últimas etapas da formação dos jogadores. Desde o planeamento da época com plantéis superlotados, onde vários jogadores não têm tido minutos de jogo (onde verdadeiramente se evolui), onde houve muitas contratações desnecessárias, impedindo que muitos joguem no patamar competitivo mais adequado ao seu desenvolvimento até à escolha de treinadores incompetentes, incapazes de desenvolver as dificuldades dos jogadores e de as esconder oferecendo-lhes o maior número possível de opções e incapazes de potenciar e explorar as suas qualidades e/ou qualidades necessárias para o futebol actual. Há coisas a mudar se pretendemos continuar a ser um dos melhores formadores da Europa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s